27.1.09

Na ponta dos pés


Uma última pirueta, dois alongamentos e a aula acabou. Para ela não. Depois do suor e dos insultos, depois das cãimbras e feridas nos pés, depois das quedas e nódoas negras ela fica a sós com o espelho. Nua e descalça dança ao som dos seus próprios passos enquanto o resto do mundo fuma um cigarro. Agora caiu... Já está de pé.
No mais íntimo de todos os movimentos, os seus membros moldam-se à dor que quase não sente. O corpo arqueado, as linhas perfeitas e a elegância dos gestos pueris enchem o estúdio de sustenidos e bemóis para formar uma escala desconhecida. Não há ninguém. É como se dançasse no fundo do mar: os braços envolvem a água e os pés beijam a areia; um diálogo de sensualidade entre ela e o infinito.

O tempo passa, os músculos morrem e ela deixa de poder dançar. Mas ainda é bailarina. Lá fora, os cigarros apagam-se. E eles acendem outro.

4 comentários:

Maria disse...

Dá-me a tua mão. Formamos e um par e dançamos até o anoitecer.

P. disse...

Bailarina para sempre .
Nem que seja apenas por moemntos de lembrança.
Como a vida é dificil.

Wilson disse...

Let's dance!

(Além da cerveja, uns "minuins" ou uns tremoços :P E outra coisa que faz do homem português único: rir-se com programas de apanhados.)

Wilson, prazer :)

Ivan Mota disse...

Só me ajeito no tango e já é um sacrifício danado. Muito obrigado Mintolita! Vou passando pelo teu blogue, está prometido.