20.1.09

Turistas de armário


Devagar, bem devagarinho, caminho nos nós dos dedos, não vá ele ouvir-me. A cada passo, a madeira chora o peso dos meus pés e eu rezo para que ele ainda esteja a dormir. Estico o braço para abrir a porta, "É agora. Não sejas cobarde. Um, dois três!". Nada. Espreito entre as fendas dos dedos que escondem o meu olhar marcado, de quem não dorme por terror. Não há sinal dele. Sinto um martelar compulsivo e regular no peito enquanto vasculho por vestígios da sua estadia. Nem uma dedada. O monstro do armário não me veio visitar hoje. O meu peito liberta-se, assim, de três quilos e meio. Lágrimas de alívio escapam-me e molham os meus lábios quentes. Dou por mim na janela a gritar que estou livre.
Festa despropositada. Se calhar, o monstro foi só lanchar.

4 comentários:

Maria disse...

Sim, foi lanchar comigo.

Maria disse...

há pessoas que nos preenchem.

Annie disse...

Muito bonito.

Um Beijinho ~~

Maria disse...

Uma hora para ti, também. (l)